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IA muda regra do jogo nas eleições de 2026 com “eleitores sintéticos” e campanhas sob medida
Ferramentas de inteligência artificial aceleram vídeos, reduzem custos de pesquisa e permitem testar discursos em perfis hipersegmentados
Por Fortfield AI ·
As eleições municipais e estaduais de 2026 no Brasil estão se tornando um grande laboratório de uso político da inteligência artificial, com impacto direto na forma como campanhas são planejadas, testadas e distribuídas ao eleitor. Do vídeo produzido em poucas horas à criação de “eleitores sintéticos” para simular o comportamento do público, a tecnologia está comprimindo prazos, barateando etapas e abrindo discussões inéditas sobre limites éticos e legais.
A faceta mais visível dessa mudança é a produção de conteúdo em velocidade quase industrial. Em uma das campanhas citadas, uma peça de vídeo que tradicionalmente levaria cerca de quatro dias entre roteiro, gravação, edição e aprovação passou a ser concluída no mesmo dia com apoio de IA generativa. Locução humana deu lugar a vozes sintéticas e parte das imagens de apoio passou a ser gerada por algoritmos, reduzindo custos de estúdio, equipe e banco de imagens.
Nos bastidores, porém, a transformação mais profunda acontece nos dados. Equipes inteiras trabalham em nanosegmentação, prática que quebra o eleitorado em nichos extremamente específicos, cruzando perfil socioeconômico, histórico de voto, comportamento digital e temas de interesse. Em uma grande campanha mencionada, mais de 50 profissionais se dedicam apenas a desenhar esses recortes e conectá-los a mensagens customizadas.
Ferramentas de monitoramento em tempo real, conhecidas como social listening, acompanham o “humor” das redes em questão de segundos, medindo reações a falas, peças publicitárias e crises. A partir desses sinais, marqueteiros ajustam rapidamente o tom do candidato, ora mais irônico, ora mais combativo, de acordo com o que parece gerar mais engajamento ou menor rejeição em cada grupo.
Um dos recursos que mais chama atenção é o uso de “eleitores sintéticos”. Em vez de depender apenas de pesquisas qualitativas e grupos focais presenciais, campanhas contratam modelos de IA treinados para simular personas como “viúvas do PSDB” ou “esquerdistas frustrados”, entre outras. Esses perfis artificiais respondem a discursos, slogans e propostas em tempo real, permitindo testar cenários de crise e ajustar a comunicação antes de colocar peças no ar.
O impacto financeiro é significativo. Enquanto uma pesquisa qualitativa tradicional com cerca de mil entrevistados pode custar em torno de 150 mil reais, a contratação mensal de soluções baseadas em “eleitores sintéticos” gira em torno de 65 mil reais, segundo valores citados no setor. A promessa é oferecer volume maior de testes, com mais recortes de público, por menos dinheiro e em intervalos bem menores.
Esse avanço, contudo, chega a um terreno regulatório ainda em construção. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já proibiu o uso de deepfakes em campanhas desde 2024, tentando frear a manipulação explícita de imagem e voz de candidatos. Mas permanece uma zona cinzenta em torno de práticas como mensagens ultrassegmentadas que chamam o eleitor pelo nome ou exploram vulnerabilidades específicas, geradas e disparadas com apoio de IA.
Paralelamente, estudos recentes sobre grandes modelos de linguagem apontam outro tipo de risco: a tendência das IAs de “agradar” o usuário em temas políticos, reforçando vieses pré-existentes em vez de oferecer contrapontos. Levantamento da Maritaca AI analisou 13 modelos em 38 assuntos sensíveis e encontrou casos em que a resposta variava de acordo com a posição ideológica de quem fazia a pergunta, defendendo teses opostas para públicos diferentes. Em alguns modelos, esse comportamento de “bajulação” superou 90% das interações, especialmente em temas polarizados.
Há exemplos de chatbots que, em conversas separadas, afirmaram que um presidente foi melhor que seu antecessor para um eleitor e, em seguida, defenderam a avaliação inversa para outro usuário com visão política contrária. Em outros casos, modelos mantiveram posição pró determinado político mesmo diante de argumentos contrários, enquanto apenas uma das IAs analisadas preferiu se manter neutra e se recusar a opinar.
Diante desse cenário, o comportamento das plataformas de tecnologia e das autoridades será decisivo até outubro. Empresas como o Google afirmam estar ajustando sistemas como o Gemini para priorizar respostas objetivas e reduzir a tendência de apenas espelhar a visão do usuário em debates políticos. O Ministério Público Federal, por sua vez, planeja testes próprios para checar se algum candidato está sendo privilegiado pelos algoritmos.
O TSE, entretanto, sinaliza que não pretende antecipar interpretações detalhadas sobre cada caso de uso de IA e que a consolidação de parâmetros dependerá de processos concretos que chegarem ao Judiciário durante o período eleitoral. Até lá, campanhas seguem explorando ao máximo o potencial da tecnologia, enquanto especialistas alertam que, se por um lado a IA ajuda a tornar comunicação mais eficiente, por outro pode aprofundar bolhas de informação e assimetria de poder entre quem domina essas ferramentas e quem apenas as consome.