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IA como Infraestrutura: O que o Oriente Médio já entende e o mundo ainda está aprendendo

A Fortfield AI conversou com Ludgero Sousa, empresário português com décadas de experiência, sobre o presente e o futuro da inteligência artificial

Por Fortfield AI ·

IA como Infraestrutura: O que o Oriente Médio já entende e o mundo ainda está aprendendo

Algumas pessoas ainda falam sobre inteligência artificial como se fosse uma promessa esperando para ser cumprida. Para Ludgero Sousa, ela já é infraestrutura. CEO da Elytron Security para o mercado EMEA e Chief Business Officer da Aleria, plataforma de IA soberana com forte presença no Oriente Médio, Ludgero construiu uma carreira que atravessa moda, televisão, diplomacia e campanhas humanitárias globais, convergindo de forma consistente para o cruzamento entre tecnologia, segurança e influência. Desde o início dos anos 2000, quando produzia grandes eventos culturais pela Europa e América Latina, desenvolveu uma forma de enxergar a tecnologia não como uma ferramenta reservada a especialistas, mas como um veículo capaz de alcançar milhões de pessoas. Essa perspectiva hoje está no centro do seu trabalho em um dos mercados mais dinâmicos do mundo.

Em conversa com a Fortfield AI, ele foi direto sobre o que está genuinamente funcionando nos Emirados, o que ainda é marketing disfarçado de inovação e o que o GCC descobriu que o restante do mundo ainda está começando a entender.

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Dubai e Abu Dhabi: além das manchetes

É fácil, ao falar sobre a UAE National AI Strategy 2031, se deixar levar pela ambição da linguagem. Ludgero prefere as evidências das operações do dia a dia. Na sua avaliação, o impacto real da IA nos Emirados já é visível em três áreas concretas: planejamento urbano, eficiência operacional e segurança. "A IA deixou de ser apenas uma tendência e passou a ser uma ferramenta estratégica para interpretar dados urbanos, prever fluxos de mobilidade, otimizar o consumo de energia, melhorar a manutenção preditiva e apoiar decisões de infraestrutura", explica.

Ele também não evita as críticas. A integração total entre sistemas ainda é mais aspiração do que realidade. Muitas organizações continuam confundindo automação básica com inteligência artificial de verdade, e poucas possuem dados estruturados, frameworks de governança e capacidade operacional para escalar IA de forma séria. "IA sem dados organizados e sem infraestrutura robusta vira apenas marketing", diz sem rodeios. O valor real, na sua visão, só aparece quando a IA começa a apoiar decisões críticas em tempo real, e não apenas automatizar processos que já existiam.

Soberania digital: a pergunta que mudou o mercado

A expansão de data centers, cloud soberana e parcerias estratégicas com grandes players de tecnologia transformou completamente o tipo de conversa que chega até Ludgero. "Antes, a pergunta era simplesmente 'como usamos tecnologia?'. Agora a discussão é muito mais sofisticada: onde ficam os dados, quem controla os modelos, qual é o nível de soberania digital e como protegemos essa infraestrutura crítica", descreve.

É nesse contexto que ele posiciona a Aleria, onde atua como CBO. A plataforma não foi construída no Vale do Silício e adaptada para o Oriente Médio. Foi desenvolvida na região, para a região, com foco em soberania, segurança e execução empresarial. E agora está expandindo de forma acelerada para o Brasil, os Estados Unidos e a Europa, onde a demanda por alternativas às plataformas tradicionais cresce rapidamente, especialmente nos setores de governo, energia, infraestrutura e grandes operações corporativas. Ludgero fala abertamente sobre sua admiração por Éric Leandri, CEO da Aleria: "Ele fez algo verdadeiramente notável ao liderar uma visão de IA soberana, segura e escalável, posicionando a Aleria como uma referência séria em inteligência artificial."

Construção inteligente: o que funciona hoje e o que ainda está amadurecendo

No setor da construção civil, onde os Emirados operam megaprojetos de escala quase impressionante, a IA já encontrou aplicações maduras e testadas. Previsão de custo e prazo, segurança operacional por meio de visão computacional, manutenção preditiva e otimização logística são, na avaliação de Ludgero, os casos de uso mais consolidados hoje. Câmeras inteligentes já identificam comportamentos de risco em obras, sinalizam o uso incorreto de equipamentos de proteção e ajudam a prevenir acidentes antes que aconteçam.

A autonomia total, com robótica avançada e agentes autônomos gerenciando grandes projetos do início ao fim, ainda está nos primeiros capítulos. Mas ele é claro sobre a direção: "Os próximos cinco anos vão acelerar enormemente essa transformação." A visão que descreve é a de um ecossistema integrado, onde a robótica cuida da execução física, a visão computacional monitora em tempo real, a impressão 3D acelera os cronogramas e a IA coordena tudo simultaneamente. "As obras vão deixar de ser ambientes puramente físicos e passarão a funcionar como ecossistemas inteligentes baseados em dados."

O GCC e a corrida global pela IA: velocidade como vantagem competitiva

Quando a conversa chega à disputa entre Emirados, Arábia Saudita e outros países do Golfo pela liderança em IA, Ludgero identifica um fator que se sobressai entre todos: confiança. Não apenas nos dados ou na infraestrutura, mas na segurança, na regulação e na soberania digital. Capital existe em toda parte. Incentivos existem. Ambição não falta. O que diferencia o GCC, na sua visão, é outra coisa.

"Os Emirados conseguem executar em meses projetos que em outras regiões levariam anos", afirma. Essa velocidade de tomada de decisão, combinada com capital disponível e uma visão estratégica genuinamente de longo prazo, é o que atrai empresas globais, talentos e investimentos para a região. O panorama comparativo que ele traça é revelador: os Estados Unidos lideram em modelos fundacionais, a China em escala industrial e velocidade operacional, a Europa em regulação e governança. O GCC ocupa uma posição própria e distinta, e segundo estimativas globais, a IA pode gerar mais de 320 bilhões de dólares para o Oriente Médio até 2030, com Emirados e Arábia Saudita liderando esse crescimento.

Segurança como pilar da IA, não como suporte técnico

Talvez o ponto mais substantivo da conversa tenha sido sobre governança e ética. Ludgero é categórico: o debate central que acontece nos bastidores do setor não é sobre eficiência. É sobre quem controla os dados, onde estão armazenados e como evitar abusos ou vulnerabilidades. "A cibersegurança deixa de ser apenas suporte técnico e passa a ser um pilar central da estratégia de IA", diz.

É uma convicção que permeia seu trabalho à frente da Elytron Security. A empresa está desenvolvendo agentes de IA com uma camada de cibersegurança integrada, construindo sistemas que não sejam apenas inteligentes, mas auditáveis e protegidos. "Não basta criar agentes inteligentes. Precisamos criar agentes seguros."

Para as empresas que ainda estão dando os primeiros passos, o conselho é direto e vai deliberadamente contra a onda atual de hype: não adotar IA simplesmente porque virou moda. Começar resolvendo problemas reais. Estruturar os dados. Criar governança. Investir em segurança desde o primeiro dia. "A inteligência artificial não é mais opcional. Ela se tornou infraestrutura estratégica para a competitividade global."

É uma frase que poderia encabeçar o keynote de uma conferência. Vinda de alguém que passou pela moda, pela diplomacia, pela produção de grandes eventos e pelo coração do mercado do Oriente Médio, soa como algo mais silencioso e concreto: uma conclusão tirada diretamente da experiência.

Entrevista realizada pela Fortfield AI. Ludgero Sousa é CEO da Elytron Security para o mercado EMEA e Chief Business Officer da Aleria.