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IA abre caminho para novas estratégias contra o câncer de pâncreas
Tecnologias de IA aceleram a busca por drogas mais eficazes e ampliam opções terapêuticas para um dos tumores mais agressivos
Por Fortfield AI ·
Silencioso, de evolução rápida e, em geral, identificado apenas em fases avançadas, o câncer de pâncreas continua sendo um dos grandes desafios da medicina moderna. Com o avanço das tecnologias digitais, porém, a incorporação da inteligência artificial (IA) começa a mudar esse cenário, oferecendo suporte tanto ao diagnóstico quanto ao desenvolvimento de tratamentos mais precisos e individualizados, o que traz uma nova dose de esperança para pacientes e especialistas.
Embora seja menos frequente do que outros tipos de tumor, o câncer de pâncreas costuma ter comportamento agressivo e prognóstico reservado, justamente pela dificuldade de ser detectado precocemente. Entre os principais fatores de risco, médicos destacam o tabagismo, o uso abusivo de álcool e o histórico familiar da doença.
Durante o XI Congresso Internacional Oncologia D'Or – Onco in Rio, o oncologista Paulo Hoff, presidente de oncologia da Rede D'Or, explicou que a prevenção é complexa porque, ao contrário do que ocorre com outros cânceres, não há um programa de rastreamento populacional que permita flagrar o tumor em sua fase inicial. Segundo ele, na maior parte das vezes o diagnóstico é feito quando a doença já se encontra em estágio mais avançado, o que limita as chances de resposta aos tratamentos disponíveis.
Apesar desse cenário adverso, Hoff ressalta que há espaço para otimismo. Em determinados casos, a combinação de cirurgia com esquemas modernos de quimioterapia pode levar à cura, e o especialista afirma acompanhar pacientes livres da doença há mais de cinco anos. Ele pondera que essa ainda não é a realidade da maioria, mas reforça que o câncer de pâncreas não deve ser encarado como uma sentença definitiva, e que a tendência é que esses bons resultados se tornem mais frequentes com o tempo.
O médico também detalha por que a simples retirada do pâncreas não garante a eliminação do câncer. De acordo com ele, as células tumorais podem aprender a circular pelo organismo, permanecer em “repouso” e, mais tarde, se estabelecer em outros órgãos, originando metástases. Além disso, mesmo após a cirurgia, existe o risco de que pequenas quantidades de células malignas permaneçam na região operada, voltando a crescer meses depois.
Nos últimos anos, a parte cirúrgica evoluiu de forma significativa, especialmente com o uso de técnicas menos invasivas. Quando o tumor não pode ser retirado por cirurgia convencional, entram em cena alternativas como a radiocirurgia e a eletroporação. A radiocirurgia utiliza equipamentos de radioterapia altamente sofisticados para direcionar feixes de radiação muito finos e precisos, permitindo aplicar doses elevadas em tempo reduzido, com o objetivo de destruir o tumor sem cortes. Já a eletroporação consiste em posicionar agulhas ao redor da lesão e aplicar uma carga elétrica intensa, que leva à morte das células cancerígenas na área tratada.
Do ponto de vista molecular, um dos grandes obstáculos no câncer de pâncreas é a presença de mutações em um gene chamado RAS, identificadas em mais de 90% dos casos. Durante muito tempo, essa proteína foi considerada “não drogável”, ou seja, fora do alcance de medicamentos capazes de bloqueá-la de forma eficiente. Com a evolução da ciência, surgiram drogas dirigidas a mutações específicas, como a RAS G12C, mas ainda não há terapias para todas as variantes, o que mantém o interesse da comunidade científica em desenvolver novos inibidores que possam controlar melhor a doença.
É exatamente nessa busca por moléculas inovadoras que a inteligência artificial ganha protagonismo. Tradicionalmente, o desenvolvimento de um medicamento pode levar de 10 a 15 anos, entre pesquisa básica, testes pré-clínicos e estudos em humanos. Com o apoio de algoritmos avançados, é possível simular, em ambiente virtual, como diferentes compostos se ligam ao alvo desejado, selecionar as estruturas mais promissoras e estimar doses iniciais, reduzindo tempo e custos das etapas preliminares.
Hoff enfatiza que a IA não substitui os estudos clínicos, mas torna o processo mais racional e eficiente. A tecnologia ajuda a filtrar quais candidatos a fármaco merecem ser testados em laboratório e em pacientes, além de auxiliar na previsão de possíveis efeitos adversos. Em paralelo, equipamentos cirúrgicos e de radioterapia de última geração, muitos deles com sistemas inteligentes embarcados, ampliam o leque de opções terapêuticas, sobretudo em tumores considerados inoperáveis até pouco tempo atrás.
A Rede D'Or, da qual o oncologista faz parte, afirma ser hoje a maior operadora de robôs cirúrgicos do Brasil, com dezenas de plataformas distribuídas por diversos estados, e é a única instituição do país a operar o CyberKnife, sistema de radiocirurgia considerado um dos mais sofisticados do mundo. A estratégia, segundo Hoff, é garantir acesso ao que há de mais moderno para que um diagnóstico de câncer de pâncreas venha acompanhado não apenas de preocupação, mas também de perspectivas reais de tratamento.