Fortfield AI Newsletter · Notícias

Geração Fast Food e Fast Mind

João Paulo Campos é advogado especialista em Direito Empresarial com mais de 10 anos de atuação, LL.M em Direito Empresarial pelo IBMEC e Pós-Graduação em Contratos Empresariais pela CEU Law School.

Por João Paulo Campos ·

Geração Fast Food e Fast Mind

Na obra de Aristóteles, em Ética a Nicômaco, encontramos uma ideia que nunca envelheceu: o ser humano sempre será direcionado para um fim. Somos seres teleológicos. E esse fim que buscamos é a conhecida palavra grega eudaimonia, algo como felicidade. Ao contrário de Platão, para Aristóteles o bem não é uma ideia abstrata, mas algo concreto e realizável na vida prática. Todo ato e toda escolha visam a algum bem.

É a partir dessa premissa que vale observar tudo o que hoje é promovido em prol da verdade do homem: o diálogo, a otimização das atividades, a evolução da humanidade. Temos a ideia de que essas coisas são boas.

O uso da inteligência artificial, sem classificar se é deliberado ou não, traz consigo exatamente essa sensação: a de ser algo bom. Não temos tempo para esperar, pesquisar, buscar, investigar. A IA faz isso por nós. Mas o problema é que nosso organismo nunca esteve pronto para receber tantos estímulos e recompensas instantâneas como hoje recebe.

Às vezes, é necessário lembrar da árvore. Há um tempo para plantar a semente, adubar a terra, regar e depois esperar. Assim como também há um tempo e uma cerimônia para o pescador fisgar o peixe. O conhecimento que transforma não chega de outra forma. Ele precisa do solo, do silêncio, da paciência de quem ainda acredita que o processo tem valor, e não apenas o resultado.

Num cenário otimista, o homem saberá usar a inteligência artificial e não ser usado por ela. É a aposta ativa de que ainda somos capazes de escolher quando a ferramenta serve ao homem, e não o contrário.

Em tempos de fast food, temos agora o fast mind: recursos rápidos para a mente. Veja que há espaço para todos: para quem precisa da velocidade e para quem pode se dar ao luxo da contemplação. Tanto o fast food quanto o fast mind têm espaço; o problema não é existirem, mas deixarem de ser ocasionais e se tornarem modo de vida. O que acontece é que essa praticidade se instala e vira hábito, e o que se conquista nos processos perde-se na rotina. O conteúdo começa a ficar raso, assim como a forma de pensar.

Aristóteles nos lembra que o bem não está no ponto de chegada. Está na qualidade do movimento em direção a ele. A eudaimonia não é um estado final. É uma prática. E práticas exigem tempo, presença e, às vezes, a coragem de não terceirizar o esforço.

A IA pode ser parte dessa prática. Desde que não seja toda ela.