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A IA não substitui autores. Ela muda o valor da autoria

Para Sofia Stefanon, a inteligência artificial não substitui a criatividade humana, mas redefine quem consegue publicar e o que ainda vale a pena ler

Por Fortfield AI ·

A IA não substitui autores. Ela muda o valor da autoria

A inteligência artificial já começou a transformar o mercado editorial, mas talvez não da forma que muita gente imaginava. O impacto mais imediato não está na substituição de autores ou no desaparecimento da criatividade humana. Está na execução.

Escrever, revisar, estruturar e publicar nunca foi tão rápido e acessível. E, justamente por isso, o desafio deixa de ser produzir conteúdo e passa a ser criar algo que realmente se destaque em meio ao excesso.

Para Sofia Stefanon, a IA não cria um problema novo no mercado editorial, ela amplia um cenário que já existia.

“Eu tenho certeza que vão existir livros escritos 100% por IA, com inputs muito fracos e que não vão ter um valor muito bom. Mas hoje em dia a gente já tem vários ghostwriters que escrevem livros extremamente fracos só para a pessoa poder falar que tem um livro.”

A diferença agora está na escala. Com ferramentas capazes de acelerar praticamente todas as etapas da produção, a quantidade de conteúdo tende a crescer de forma exponencial. E isso aumenta o risco de saturação com materiais genéricos.

“Hoje o risco de saturar o mercado com conteúdos genéricos é maior do que realmente democratizar a escrita.”

Ainda assim, Sofia acredita que a discussão sobre IA costuma ignorar um ponto importante: tecnologia não substitui profundidade.

Sua relação com os livros começou muito antes da inteligência artificial entrar no debate. Quando criança, ganhou da mãe um dicionário que carregava uma frase que ainda lembra de cabeça: “O maior tesouro que a gente pode ter na nossa vida é o conhecimento, porque ele só cresce e ninguém nunca pode tomar da gente.”

Com o tempo, a leitura deixou de ser apenas entretenimento.

“Foi quando eu tive uma virada de chave, de entender que os livros realmente poderiam me ajudar muito, não só como entretenimento ou histórias, mas também no cotidiano, para resolver problemas reais da vida e do trabalho.”

Essa visão influencia diretamente a forma como ela enxerga a IA hoje. Para Sofia, a tecnologia não democratiza talento, repertório ou visão de mundo, mas democratiza execução.

Ferramentas de IA reduzem barreiras técnicas e financeiras, permitindo que mais pessoas consigam estruturar, revisar e publicar conteúdos sem depender de grandes equipes.

“Eu não acho que a IA necessariamente democratiza o talento ou a profundidade. Mas ela definitivamente democratiza a execução.”

Ela cita a própria operação como exemplo: “Eu tenho uma empresa com mais de 2.400 clientes e não tenho nenhum funcionário. E boa parte disso só é possível por causa da IA.”

Nesse processo, o trabalho humano muda de lugar. Em vez de concentrar energia em tarefas operacionais, o foco passa a ser estratégia, clareza e curadoria.

“O papel dessa pessoa muda. Em vez de gastar horas no operacional, ela pode focar muito mais na parte estratégica: avaliar se o texto está fluido, se os argumentos fazem sentido.”

E talvez seja justamente aí que esteja o principal efeito da IA no mercado editorial: quanto mais fácil se torna produzir, mais valioso fica aquilo que não pode ser automatizado.

Profundidade. Repertório. Sensibilidade. Visão.

A lógica também aparece na forma como livros são descobertos hoje. Para Sofia, o problema não está necessariamente na IA, mas nos algoritmos que moldam consumo e atenção.

“O algoritmo foi criado para manter a pessoa o máximo de tempo possível dentro de uma plataforma.”

Isso cria ciclos de repetição que reforçam gostos e limitam repertórios, especialmente em fenômenos como o BookTok, onde certos livros passam a dominar completamente a atenção coletiva.

“Se você usa de forma passiva, ele pode limitar bastante o repertório.”

Ao mesmo tempo, ela acredita que leitores mais experientes tendem a desenvolver filtros melhores para distinguir profundidade de volume. Em um ambiente saturado, qualidade não desaparece, ela apenas exige mais curadoria.

Por isso, Sofia evita tratar a IA como ameaça à autoria.

“Eu já não confio em alguns livros escritos totalmente por humanos.”

Para ela, o problema nunca foi exclusivamente a ferramenta utilizada no processo, mas a intenção por trás da obra.

“No fim, a qualidade continua dependendo muito mais da intenção, da profundidade e da honestidade de quem está criando.”

A IA pode organizar ideias, acelerar etapas e funcionar como apoio criativo. Mas o núcleo de um livro continua precisando vir de alguém.

No fim, a tecnologia pode transformar completamente os bastidores da produção editorial. Pode tornar livros mais baratos, rápidos e acessíveis. Pode multiplicar autores e aumentar drasticamente a quantidade de conteúdo disponível.

Mas ainda não resolve a parte mais difícil: ter algo relevante para dizer.