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Como a inteligência artificial está redefinindo criatividade, marketing e cultura digital
Júlia Perissé, especialista em inteligência artificial e automações, fala em entrevista para a Fortfield AI sobre o impacto da tecnologia na criação de conteúdo e no futuro das marcas
Por Fortfield AI ·

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma tendência tecnológica para se tornar uma transformação estrutural na forma como empresas, marcas e criadores produzem conteúdo. Nesse contexto, a especialista em IA e criadora de conteúdo, Júlia Perissé, representa uma nova geração de profissionais que atuam na interseção entre comunicação, criatividade e sistemas inteligentes.
Ela conta que sua relação com tecnologia começou muito cedo e de forma natural.
“Eu nasci conectada no computador. Fui alfabetizada no teclado dos meus pais”, relembra.
Apesar de ter iniciado no marketing tradicional, com foco em branding, conteúdo e posicionamento, ela sempre manteve um interesse paralelo pela parte técnica. Esse interesse acabou se tornando o centro da sua atuação profissional.
Para ela, o grande ponto de virada aconteceu quando percebeu que o problema da inteligência artificial não estava na ferramenta, mas na forma como ela era utilizada no marketing. No início, o uso era superficial, baseado em prompts simples, o que gerava conteúdos previsíveis e artificiais.
Ela explica que isso mudou quando começou a combinar IA com lógica, automações e análise de dados. A partir daí, o conteúdo passou a ganhar consistência e precisão, deixando de parecer genérico.
“Quando você sabe usar a estrutura, a IA deixa de parecer artificial e passa a ser extremamente certeira”, comenta.
Com a evolução dos modelos multimodais, esse processo se intensificou ainda mais, reduzindo a sensação de que o texto foi gerado por uma máquina.
Na visão dela, a criatividade continua essencial, mas muda de lugar dentro do processo. Ela deixa de ser apenas execução e passa a ser direção criativa, repertório e construção de sistemas de linguagem.
“Pra mim, a criatividade no futuro vai ser muito menos sobre execução manual e muito mais sobre direção criativa e visão lógica para construir sistemas de linguagem”, afirma.
Esse movimento já aparece em formatos como os dark videos, conteúdos produzidos com IA em todas as etapas, do roteiro à distribuição, muitas vezes sem a presença de um criador em frente às câmeras.
Ao mesmo tempo, ela chama atenção para um dos efeitos colaterais mais relevantes da expansão da IA: a padronização do conteúdo digital. Segundo ela, a tecnologia eleva a qualidade média da produção, mas também aumenta o risco de uma internet homogênea.
“A IA provavelmente vai elevar muito a qualidade média da comunicação. Pequenas empresas e criadores vão conseguir produzir coisas que antes exigiam equipes enormes”, explica.
Mas ela complementa que isso vem acompanhado de um desafio importante.
“A maioria das pessoas usa os mesmos prompts, os mesmos modelos e as mesmas referências. Então tudo começa a parecer igual.”
Para ela, o diferencial não está em usar IA, mas em criar sistemas próprios de linguagem, identidade e pensamento criativo. Sem isso, o resultado tende a ser genérico, independentemente da tecnologia utilizada.

Mesmo com o avanço da tecnologia, ela acredita que a IA ainda depende profundamente da visão humana para gerar impacto cultural real.
“A IA consegue recombinar referências, mas normalmente ela não cria ruptura cultural sozinha”, observa.
Nesse sentido, o repertório se torna uma das habilidades mais importantes da nova economia criativa. Quanto maior a bagagem cultural, estética e estratégica, melhor a capacidade de direcionar a inteligência artificial.
Ela também destaca um erro recorrente entre empresas que estão adotando IA. Muitas testam ferramentas com prompts genéricos, recebem resultados medianos e concluem que a tecnologia não funciona.
“O principal erro é achar que a IA entrega excelência na primeira versão”, afirma.
Outro problema comum é a tentativa de resolver toda a operação com uma única ferramenta. Para ela, os melhores resultados surgem de ecossistemas de IA, onde diferentes modelos, automações e validações humanas trabalham em conjunto.
Além disso, muitas empresas ainda tentam automatizar processos sem definir claramente identidade e posicionamento, o que gera marcas inconsistentes e sem diferenciação.
Ela acredita que o criador do futuro será muito mais tecnológico, utilizando IA para entender audiência, testar formatos e escalar produção de forma inteligente. Ao mesmo tempo, observa o surgimento de uma nova geração que já nasce completamente imersa nesse ecossistema.
Mesmo com o avanço de avatares digitais e influenciadores virtuais, ela vê esse movimento como parte natural da evolução digital. Para ela, o mercado sempre passa por fases de estranhamento antes de se consolidar.
No encerramento da entrevista, ela resume o principal diferencial humano para o futuro em uma palavra.
“Curiosidade”, diz, antes de complementar que ela precisa ser constante e quase obsessiva.
Em um cenário de mudanças rápidas, ela acredita que o diferencial não estará em saber tudo tecnicamente, mas em testar continuamente, desenvolver senso crítico e saber fazer as perguntas certas para a IA.
No fim, a inteligência artificial não substitui o papel humano. Ela redefine onde ele importa mais: na visão, na intenção e na capacidade de transformar tecnologia em comunicação com significado.